Kang e suas versões era a escolha perfeita para Vingadores: Doomsday do UCM

Proeminente Eduardo
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O Universo Cinematográfico da Marvel (UCM) encontra-se, indiscutivelmente, em uma de suas maiores encruzilhadas narrativas desde a sua concepção. A transição abrupta do antes planejado Vingadores: A Dinastia Kang para o recém-anunciado Vingadores: Doomsday marcou uma das mais polêmicas guinadas de bastidores da história do estúdio. A decisão de trazer Robert Downey Jr. de volta, desta vez escondido sob a gélida máscara de metal de Victor Von Doom, quebrou a internet e gerou um frenesi midiático. Contudo, para os fãs que acompanham de perto a estrutura narrativa da Marvel e a evolução de suas fases, uma constatação amarga se torna quase inevitável: Kang, aquele que permanece, era uma opção imensamente superior ao atual Doutor Destino para assumir o manto de antagonista principal da Saga do Multiverso.


Jonathan Majors como Kang


Os motivos para essa afirmação vão muito além de uma simples preferência estética ou de um apego ao plano original. Trata-se da própria essência da construção de um universo compartilhado. A atual direção que a Marvel Studios está tomando com Vingadores: Doomsday aponta para um erro de planejamento gigantesco, sacrificando o desenvolvimento de longo prazo em prol de um choque nostálgico e imediatista.


A arte da antecipação no UCM


Para compreendermos o tamanho do erro que a Marvel está cometendo com o novo vilão de Vingadores: Doomsday, precisamos olhar para o passado e analisar o que fez a Saga do Infinito funcionar de maneira tão espetacular. O sucesso de um evento colossal como Vingadores: Guerra Infinita e Ultimato não aconteceu por acaso. Foi o resultado de uma meticulosa construção de mundo, algo que podemos chamar de "Efeito Thanos".


Se analisarmos os filmes mais antigos, notamos um desenvolvimento paciente e assustador do Titã Louco. Nós fomos apresentados a ele na cena pós-créditos de Os Vingadores (2012), com aquele sorriso ameaçador. Depois, sua presença e poder bélico foram expandidos em Guardiões da Galáxia vol. 1 (2014) e sutilmente lembrados em Vingadores: Era de Ultron (2015). Quando Thanos finalmente se levantou de sua cadeira e disse "Eu mesmo faço isso", nós, os fãs, já sabíamos perfeitamente o tamanho da ameaça gigante que os heróis enfrentariam. A tensão estava estabelecida. O público sentia o peso do vilão muito antes de ele desferir o primeiro soco.


No entanto, para este novo Doutor Destino, a Marvel parece ter esquecido completamente a sua própria cartilha de sucesso. Praticamente não sabemos nada sobre esta versão de Victor Von Doom. A sua introdução limitou-se à cena final de Quarteto Fantástico, de forma apressada. E, do nada, sem nenhum arco narrativo prévio que justifique o seu nível de poder cósmico ou as suas motivações perante o multiverso, ele vai enfrentar logo todos os super-heróis em Doomsday e, presumivelmente, vencê-los para estabelecer o seu domínio.


Essa ausência de build-up destrói qualquer peso emocional, o Doutor Destino é indiscutivelmente um dos maiores vilões da história dos quadrinhos, mas inseri-lo de paraquedas no ápice de uma saga, esperando que o público sinta o mesmo pavor que sentia por Thanos, é uma falha grotesca de roteiro e desenvolvimento cinematográfico.


O fator ameaça: Robert Downey Jr. vs. Jonathan Majors


Outro ponto crucial nesta análise e crítica cinematográfica é a presença de tela e a capacidade de transmitir medo. O atual personagem vilão do UCM, interpretado por Robert Downey Jr., simplesmente não transmite a mesma ameaça e o mesmo terror psicológico que o Kang de Jonathan Majors conseguiu estabelecer em tão pouco tempo.


Robert Downey Jr. é uma lenda do UCM, o rosto dele é, e sempre será, sinônimo de Tony Stark, o Homem de Ferro, o salvador do universo. Ao colocá-lo no papel de Doutor Destino, a Marvel cria uma dissonância cognitiva no público. Em vez de olharmos para a tela e sentirmos calafrios diante de um ditador implacável da Latvéria, o cérebro do espectador fica tentando processar a metalinguagem da escalação. O fator intimidação se perde no meio do puro fan service.


Em contrapartida, Jonathan Majors encarnou Kang com uma intensidade palpável. Havia uma imprevisibilidade no seu olhar, uma calma sádica de um ser que já viveu bilhões de vidas e destruiu incontáveis universos. Ele não precisava de uma armadura brilhante para impor respeito; o seu texto e a sua atuação teatral já faziam todo o trabalho pesado. Kang soava como uma força da natureza, um conquistador inabalável.


A construção perfeita em Loki e o tropeço em Quantumania


Kang UCM
Aquele que permanece/Kang


Para sermos justos com a trajetória de Kang no UCM, é preciso reconhecer os altos e baixos do personagem, embora o saldo geral fosse incrivelmente promissor. A série Loki apresentou perfeitamente Kang (na sua variante "Aquele Que Permanece") para o grande público. O episódio final da primeira temporada é uma aula magna de como construir tensão puramente através de diálogos. A promessa de que se ele fosse morto, versões infinitamente piores dele surgiriam para iniciar uma guerra multiversal, foi o gancho perfeito. Na segunda temporada, a introdução de Victor Timely apenas aprofundou a complexidade do personagem e mostrou a versatilidade do papel.


É verdade que o filme Homem-Formiga e a Vespa: Quantumania acabou nerfando o vilão um pouquinho. A decisão de fazer o "Conquistador" ser derrotado por heróis do escalão urbano (junto com formigas superdesenvolvidas) arranhou a reputação de invencibilidade que havia sido criada. Contudo, isso estava longe de ser um problema irreversível. A cena pós-créditos de Quantumania, que revelou o Conselho dos Kangs com milhares de variantes furiosas, deixou claro que o verdadeiro perigo não era um único indivíduo, mas sim a infinitude deles. A Marvel tinha a faca e o queijo na mão para transformar Kang em um verdadeiro pesadelo nas Fases 5 e 6.


O recast era a solução lógica


O principal argumento da Marvel Studios para abandonar a trama de Kang foi, obviamente, o problema legal envolvendo o ator Jonathan Majors. Apesar do que aconteceu com o ator na vida real e de sua subsequente demissão, a Marvel poderia e deveria ter buscado outro ator para interpretar o vilão.


A prática de recast (re-escalação de atores) não é uma novidade no cinema de super-heróis e muito menos no próprio UCM. Nós vimos isso acontecer pacificamente com Hulk/Bruce Banner (de Edward Norton para Mark Ruffalo) e com o Máquina de Combate (de Terrence Howard para Don Cheadle). Sendo Kang um personagem cujas variantes multiversais podem ter qualquer aparência, como provado pelo próprio funcionamento do multiverso em Homem-Aranha: Sem Volta para Casa, trocar o rosto do ator principal seria a coisa mais fácil de se justificar narrativamente.


A solução estava literalmente dentro da própria Marvel. O ator Chukwudi Iwuji, que interpretou brilhantemente o Alto Evolucionário em Guardiões da Galáxia vol. 3, teria sido uma escolha incrivelmente favorável para assumir o manto de Kang. Iwuji demonstrou uma capacidade absurda para interpretar a megalomania, a loucura e a crueldade intelectual, características vitais para o Conquistador. Ele entregou um dos vilões mais odiosos e bem desenvolvidos dos últimos anos da Marvel, com uma presença cênica esmagadora. Se o estúdio tivesse reaproveitado esse talento, ou buscado outro ator de calibre semelhante, a Saga do Multiverso não teria precisado sofrer esse "reboot" narrativo desesperado.


O risco iminente de Vingadores: Doomsday


O resultado dessa mudança de curso é que Vingadores: Doomsday se tornou uma aposta incrivelmente arriscada. Ao abandonar um vilão que teve horas de tempo de tela dedicadas à sua construção, espalhadas por múltiplas produções, para introduzir o Doutor Destino no último minuto, o estúdio desrespeita o investimento emocional dos fãs.


Victor Von Doom merecia o tratamento de Thanos. Ele merecia ser introduzido aos poucos, tendo a sua origem na Latvéria explorada, a sua rivalidade íntima com Reed Richards desenvolvida ao longo de filmes inteiros, e a sua busca implacável por poder justificada pela sua crença de que apenas a sua mão de ferro pode salvar a humanidade.


Colocar o Doutor Destino para enfrentar e destruir os Vingadores logo de cara, impulsionado pelo carisma reciclado de Robert Downey Jr. é buscar um atalho para o sucesso financeiro através da nostalgia barata, ignorando a qualidade da narrativa. O impacto de ver os heróis apanhando de um vilão só funciona quando entendemos quem é o vilão e por que ele é indestrutível.


Em conclusão, a Saga do Multiverso foi projetada para ser a era de Kang. O desenvolvimento estava em andamento, as sementes haviam sido plantadas com sucesso em Loki, e o potencial para um embate de proporções infinitas estava claro. A substituição precipitada por um Doutor Destino sem bagagem no universo, interpretado por um ator cuja imagem está eternamente ligada ao maior herói da franquia, não só enfraquece o senso de perigo, mas também expõe um roteiro fragmentado. Kang, com a sua capacidade de estar em todos os tempos e universos, era a verdadeira ameaça que a Marvel precisava. O abandono do personagem não foi uma correção de rota; foi, possivelmente, um dos maiores erros da história do UCM.

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