Crítica | Homem-Aranha: Um Novo Dia - A dor de crescer e o triunfo de um herói que amamos

Fernanda Maria
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Quando as luzes da sala de cinema se apagaram para a exibição de Homem-Aranha: Um Novo Dia, confesso que o meu nível de ceticismo estava relativamente alto. Nos últimos anos, cobrir o Universo Cinematográfico da Marvel (UCM) tem sido uma experiência agridoce.

Crítica de Homem Aranha Um Novo Dia Angola
Homem Aranha/Sony Pictures


Entre o excesso de realidades paralelas, multiversos superlotados e debates intermináveis sobre o futuro da franquia, parecia que a essência humana dos personagens se tinha perdido no meio de tantos fundo verde. Mas, ao longo das duas horas e vinte e cinco minutos de projeção, senti novamente aquele velho e raro frio na barriga. Fui lembrado do porquê de amarmos tanto este personagem. Um Novo Dia não é apenas uma lufada de ar fresco para a Marvel; é, indiscutivelmente, o filme mais maduro, emocional e tematicamente complexo de Peter Parker até a agora.

 9. 5/10


A trama principal de Homem-Aranha: Um Novo Dia arranca quatro longos anos após os eventos trágicos e o feitiço de esquecimento de No Way Home. Encontramos um Peter Parker (Tom Holland) completamente à deriva, a viver num sótão minúsculo, a lutar para pagar as contas e a dedicar-se a tempo inteiro a ser o Amigão da Vizinhança. Ele é um fantasma na sua própria vida. A ausência da Tia May, que o herói continua a homenagear com flores regulares na sua campa, pesa em cada cena.

O que mais me impressionou no primeiro ato do filme foi a coragem do realizador Destin Daniel Cretton e dos argumentistas Chris McKenna e Erik Sommers em abraçar o silêncio e a melancolia. Há uma cena logo no início em que Peter observa, com um olhar de partir o coração, o regresso de MJ (Zendaya) e Ned (Jacob Batalon) a Nova Iorque após a sua graduação no MIT. Ele acompanha as vidas deles através do TikTok, consumido pela saudade, mas paralisado pelo medo de arruinar os seus futuros. Quando ele finalmente ganha coragem para tentar uma interação, o olhar vazio que recebe em troca é devastador.

"Às vezes, o Homem-Aranha tem de fazer o que é difícil, mesmo que isso parta o coração de Peter Parker", diz ele, numa linha de diálogo que define o tom melancólico de toda a obra.

Tom Holland entrega aqui a interpretação da sua vida. O ator cresceu, e o seu Peter Parker reflete perfeitamente essa transição dolorosa para a vida adulta. Ele não é mais o adolescente deslumbrado com os Vingadores; é um jovem traumatizado que usa o uniforme do Aranha como um mecanismo de defesa contra a solidão absoluta.

Se o drama pessoal de Peter é o coração do filme, a ameaça que o obriga a agir é o elemento que mais me surpreendeu por fugir completamente à fórmula tradicional. Em vez de mais um vilão excêntrico à procura de dominação mundial com um raio laser no céu, o filme introduz uma força invisível e sinistra, capaz de assumir o controlo dos corpos e mentes dos cidadãos de Nova Iorque à procura de algo chamado "V-Max".




A forma como Cretton filma estes ataques corporais remete quase para um thriller de terror independente, com ecos de um apocalipse zombie que se espalha pelo ar. É arrepiante e desconfortável de uma forma que a Marvel raramente ousa ser. No centro deste mistério, temos ainda a introdução de Sadie Sink (num papel que a campanha de marketing inteligentemente escondeu, e que eu também me recuso a estragar aqui).

Em simultâneo com esta ameaça bizarra, o próprio Peter lida com o seu corpo a voltar-se contra si. Numa reviravolta fascinante que remete a arcos clássicos da banda desenhada, o seu ADN sofre uma mutação causada por uma tempestade de "hormonas aracnídeas". Os seus lançadores de teias mecânicos começam a falhar, substituídos por glândulas orgânicas dolorosas, e os seus instintos tornam-se violentos. O Aranha está com raiva, e as coreografias de luta refletem isso mesmo: são viscerais, pesadas e coreografadas quase como uma dança de artes marciais (wuxia), uma herança clara do excelente trabalho de Cretton em Shang-Chi.

Apesar do tom intimista, Um Novo Dia continua a ser um filme do UCM, o que significa que as participações especiais são inevitáveis. Vemos Frank Castle/O Justiceiro (Jon Bernthal), Bruce Banner/Hulk (Mark Ruffalo) e Mac Gargan/Scorpião (Michael Mando) a cruzar o caminho da narrativa.

O que poderia facilmente transformar-se numa confusão narrativa é salvo por uma dinâmica de personagens brilhante. A química entre o Homem-Aranha e o Justiceiro é ouro puro. Ver o otimismo ferido de Peter chocar com o cinismo brutal de Frank Castle, num esconderijo cheio de armadilhas enquanto partilham uma taça de chili, proporciona momentos de comédia brilhantes sem nunca desrespeitar o trauma que une os dois personagens. Eles são, no fundo, dois homens miseráveis e solitários a tentar fazer o que está certo.

Nem tudo é perfeito, no entanto. Se tenho de apontar um defeito, ele reside onde a Marvel tem tropeçado frequentemente: os efeitos visuais. Enquanto as emoções são incrivelmente reais, o CGI durante algumas das batalhas maiores e nos balanceamentos de teia pela cidade continua a ter aquele aspeto artificial e elástico, parecendo, por vezes, um cinemático de videojogo. Felizmente, as emoções em jogo são tão altas que é fácil relevar estes deslizes técnicos.

Na reta final do filme, a genialidade do guião revela-se na forma como reintegra MJ e Ned na ação. A Marvel Studios poderia ter optado pelo caminho mais fácil e revertido o feitiço do esquecimento de imediato, mas não o faz. Em vez disso, Zendaya recebe muito mais material com que trabalhar do que nos filmes anteriores. A sua MJ continua sagaz e observadora, e a química que partilha com Holland transborda para o ecrã, mesmo sem a âncora do passado. As suas interações são simples, honestas e carregam uma urgência emocional palpável.

A grande mensagem de Homem-Aranha: Um Novo Dia resume-se a um velho ditado: "Nenhum homem é uma ilha", nem mesmo um super-herói. É uma história sobre a inevitabilidade de pedir ajuda, sobre aprender a canalizar o luto e sobre aceitar que o crescimento exige mudanças dolorosas.

Com os seus 145 minutos, o filme toma o seu tempo para respirar, desenvolver as dinâmicas e estabelecer as peças. Pode parecer longo no papel, mas no ecrã cada minuto é justificado pelas recompensas emocionais dos atos finais, culminando num clímax que, admito, me deixou com um nó na garganta.

Se está cansado do UCM e sente que os últimos filmes focaram-se mais em participações especiais multiversais do que em contar uma boa história, Homem-Aranha: Um Novo Dia é o antídoto que estava à espera. É um triunfo absoluto. Ao focar-se no lado humano, fragilizado e desesperado do herói, entrega a melhor aventura de Tom Holland com a máscara.

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