Se 2025 foi o ano dos grandes épicos, Companion, de Drew Hancock, é a prova de que as melhores surpresas costumam vir de roteiros afiados e contundentes. Embora evoque a atmosfera de Ex Machina, o filme de Hancock foge do profetismo solene de Alex Garland para entregar algo mais imediato e perigoso: uma sátira mordaz sobre o controle masculino mascarado de gentileza.
O grande trunfo narrativo reside na subversão da persona de Jack Quaid. Conhecido por seus papéis de "cara legal", Quaid utiliza esse carisma para construir Josh, um personagem insidioso que representa o ápice do privilégio e da toxicidade. Ele não é um vilão de desenho animado; ele é o namorado babaca que acredita ser um herói, tornando sua ameaça muito mais real e reconhecível.
No centro da trama está Iris (Sophie Thatcher), uma namorada ciborgue que começa a notar as rachaduras em seu relacionamento programado. A atuação de Thatcher é nada menos que espetacular. Com uma versatilidade impressionante, ela consegue a proeza de transformar uma robô na figura mais cativante, empática e ironicamente humana de toda a projeção.
Sua jornada de autodescoberta e a corrida contra o tempo para evitar o "reset" de Josh elevam o filme de uma simples ficção científica para um thriller de sobrevivência sobre autonomia e liberdade.
Companion é um camaleão cinematográfico:
Terror e Comédia, o filme transita entre o riso nervoso e o horror psicológico com um ritmo impecável e desconstrói a ideia da "parceira perfeita" fabricada sob medida.
A busca de Iris por salvação mantém a energia do filme alta do início ao fim.
Companion não precisa ser o maior filme do ano para ser um dos melhores; ele só precisa ser tão inteligente quanto é. É um espelho desconfortável sobre como a tecnologia pode ser usada para amplificar os piores instintos de controle humano.
Divertido, inteligente e profundamente atual, Companion utiliza a inteligência artificial para falar sobre algo muito antigo: a luta das mulheres para serem donas de suas próprias histórias. Com um elenco de apoio sólido, incluindo Harvey Guillén, o filme é um deleite para quem busca cinema com cérebro e coração (mesmo que seja um coração sintético).
